"Me perguntava se estava vivendo no Iraque", diz venezuelana que passa segundo Natal no Brasil

Dois pacotes de fraldas descartáveis ajudaram a tirar família de Karen da Venezuela. Imigrante tinha planos de ir para Maringá (PR) mas precisou ficar em Porto Velho por falta de dinheiro.


É em uma rua do Mocambo, bairro da região central de Porto Velho, que Karen, o marido e os dois filhos caminham no fim da tarde. Quem passa por eles nem imagina que a família de venezuelanos passará o seu segundo Natal em solo brasileiro graças a dois pacotes de fraldas descartáveis.

A vida corria normalmente. Ela estudava, trabalhava e tinha sua família por perto. No entanto, assim, como milhares em seu país, Karen Padilha viu sua vida tomar um rumo diferente nos últimos anos. A Venezuela que ela estava acostumada a ver, sofria uma metamorfose.

“Já não sabia se estava vivendo na Síria ou na Venezuela”, conta Karen.

Em Porto Velho, os quatro passarão o Natal em um pequeno apartamento na região central da capital. Os móveis, em sua maioria, doações de amigos brasileiros, se espremem nos dois únicos cômodos do local. A vida que para muitos brasileiros seria motivo de queixas, para Karen simboliza a paz após momentos difíceis vividos em seu próprio país.

A hipótese de deixar o país natal se transformou em uma decisão no início de 2017, após ela saber que estava esperando um bebê.

“Grávidas no chão e crianças em caixas de sapato, esta é a realidade das maternidades na Venezuela”, afirma Karen.
Ao G1, a venezuelana de 29 anos contou que trabalhava em um supermercado em Caracas, capital do país. Segundo ela, as imagens de longas filas e prateleiras vazias que os brasileiros assistem na televisão são somente uma parte do drama de quem ainda vive na Venezuela.

“Eu trabalhava em um supermercado e quando chegavam os alimentos muitos funcionários reservavam uma parte para seus parentes. Eu sempre guardava um quilo de arroz para mim, outro para minha mãe e para quem mais precisasse”, afirma Karen.
Mais de 3 mil km separam o antigo e novo lar de Karen e sua família.  — Foto: Google/Reprodução
Com nostalgia, a venezuelana também lembra de sua vida acadêmica na Universidad Central de Venezuela, onde cursou até o penúltimo período de biblioteconomia. Hoje, em Porto Velho, ela se divide entre os diversos assuntos e as descobertas da língua portuguesa, e até chegou a prestar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) desse ano.

Com a nota obtida, Karen espera ingressar na Universidade Federal de Rondônia (Unir) para, assim, obter a titulação de bacharel em biblioteconomia em território brasileiro.

“Prefiro recorrer a este método do que retornar à Venezuela para exigir aproveitamento das disciplinas que já cursei”, destaca Karen.

Chegando o período natalino e as festas de fim de ano, a venezuelana não esconde que a sua principal preocupação é a família que ainda ficou no país bolivariano. Segundo ela, seu pai afirma que chega a ficar mais de quatro horas em uma fila de supermercado para conseguir alguma coisa.

“Imagina passar a manhã em uma fila e quando chegar a sua vez não haver mais alimentos?”, questiona Karen.

Regressando em sua memória, a venezuelana lembra que foram as dificuldades para conseguir comida que serviram de motor inicial à ideia de deixar o país. Grávida, e trabalhando em um supermercado, ela lembra que fraldas descartáveis chegavam uma vez ao mês às prateleiras.

“Havia briga entre os clientes quando fralda descartável chegava aos mercados. Na Venezuela de hoje, é necessário apresentar a criança ou o registro de nascimento para comprar fraldas. Enquanto estivesse grávida eu não poderia”, lembra Karen.

Com uma inflação mensal de 144% só no último mês, conforme cálculos do parlamento do próprio país, a venezuelana lembra que, antes de deixar o país, uma mamadeira custava um salário mínimo. Na tabela de preços da Venezuela, um quilo de carne, segundo informações da família de Karen, também pode comprometer todo um salário mínimo mensal, menos de US$ 10 na taxa de câmbio do mercado negro.


Karen Padilha vai passar o Natal longe da terra natal — Foto: Pedro Bentes/G1
Mesmo ciente das dificuldades, alguns amigos do trabalho de Karen conseguiram guardar dois pacotes de fraldas descartáveis para ela. O produto tão cobiçado e alvo de brigas acabou se tornando uma espécie de passaporte para fora do país.

“Quando decidimos deixar a Venezuela, eu e meu marido começamos a vender tudo que podíamos para levantar dinheiro e comprar as passagens para o Brasil, mas não foi o suficiente. Então resolvemos recorrer a um método muito popular na Venezuela nos dias de hoje, o bachaqueo”, explica Karen.

O método, segundo a própria
O método, segundo a própria venezuelana, consiste em vender determinado produto à uma pessoa específica por um valor acima do preço de mercado. Mesmo ciente do ato que ela hoje desaprova, Karen e seu marido se viram obrigados a recorrer a isso para ter dinheiro suficiente para a compra de duas passagens de ônibus com destino à Boa Vista (RR). Eles venderam os dois pacotes de fralda usando o bachaqueo.

Para Karen, a Venezuela de hoje não enfrenta somente uma crise política.

“Há uma crise econômica, na medicina e na sociedade. Quando via uma criança de cinco anos brincando com arma de fogo, me perguntava se estava vivendo no Iraque”, lamenta Karen.
De Boa Vista (RR), a família seguiu para Manaus (AM) com a ideia fixa de chegar à Maringá (PR), onde mora o irmão de Karen. Porém, não possuíam dinheiro suficiente para chegar ao destino desejado.

“Foi quando o capitão do barco nos disse que em Porto Velho havia muito trabalho e que era uma cidade segura para se viver”, lembra Karen.

Karen e sua família passarão o fim de ano em Porto Velho.  — Foto: Pedro Bentes/G1
Para o Ano Novo, ela revela que há famílias venezuelanas que costumam não celebrar a data se perderam algum parente ao longo do ano. Mas para Karen será diferente, mesmo ciente das dificuldades pelas quais passa seu país e da incerteza que é viver no Brasil como imigrante, ela tem o que comemorar. Sua família encontrou paz na Amazônia.

“É muito difícil chegar a um país desconhecido sem apoio ou ajuda. Apenas desejamos também colaborar com a sociedade. Os venezuelanos que chegam aqui podem ajudar no desenvolvimento de Porto Velho”, conclui Karen.

Para o Ano Novo, ela revela que há famílias venezuelanas que costumam não celebrar a data se perderam algum parente ao longo do ano. Mas para Karen será diferente, mesmo ciente das dificuldades pelas quais passa seu país e da incerteza que é viver no Brasil como imigrante, ela tem o que comemorar. Sua família encontrou paz na Amazônia.

“É muito difícil chegar a um país desconhecido sem apoio ou ajuda. Apenas desejamos também colaborar com a sociedade. Os venezuelanos que chegam aqui podem ajudar no desenvolvimento de Porto Velho”, conclui Karen.

Fonte G1/RO.

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