Últimas

6/recent/ticker-posts

As vítimas da Covid-19 em Rondônia

 Rondônia esta de luto


Fonte - G1/RO.

Nesta sexta-feira (14), o estado passou a triste marca de mil mortes pela Covid-19, segundo dados oficiais dos órgãos de saúde. O total de óbitos registrados é de 1.001, com 47.288 casos confirmados.


Cada uma dessas perdas impôs sofrimentos sem precedentes para centenas de famílias que perderam mães, pais, filhos, esposas, maridos. E em muitos casos, não conseguiram se despedir.


São mais de 1.000 histórias por trás dos números. E o G1 conta algumas delas:


Jennifer Camilly Souza Gonçalves, 15 anos

Filha maravilhosa, nunca deu desgosto. Quando suspeitou que poderia estar infectada com o novo coronavírus, se isolou pra ter certeza que não ia passar a doença para os irmãos, de 14 e 4 anos.


Jennifer lutou pra viver até os últimos instantes. Ela dizia que queria sarar logo, para sair do hospital e comer o frango guisado que vó Tyana faz e o pãozinho da vovó Dirce. Ela queria ouvir mais músicas, assistir os filmes que não viu, ir ao Acre abraçar a família, terminar a escola.


A mãe, Ethyene, quase todo dia se pega lembrando de Jennifer se maquiando e tirando um milhão de selfies.


“As palavras para descrevê-la sem dúvida são: amiga, fiel, aconselhadora, companheira, responsável. Os dias são todos difíceis. Ainda não acreditamos que nossa princesa foi morar com o papai do céu e nos deixou tão precocemente. Muitos eram os planos e hoje é só a saudade”, diz Ethyene.



A família diz que, para quem fica, lidar com o luto é terrível, devastador. A pandemia é cruel e estabelece até um tempo curto para o adeus no cemitério por causa dos extensos protocolos de segurança.


Jennifer nasceu em Alta Floresta D'Oeste no dia 17 de outubro de 2004, e faleceu dia 27 de julho, 15 dias depois de ser diagnosticada com a Covid-19.


André Magalhães Pacheco, 37 anos

Médico dedicado, foi para linha de frente no intuito de salvar vidas durante a pandemia. Apaixonado pela profissão, deu sua vida por ela. Nasceu em Porto Velho, com 4 anos foi morar em Cacoal, onde cresceu até ir para a Bolívia fazer medicina. Atualmente morava em Nova União.


André amava viajar, o lugar favorito era Porto de Galinhas (PE). Sempre que podia, André pedia carne e bucho de bode (que, para ele, só sua mãe sabia fazer).


Claudia Fidelis, esposa de André, vem tentando aprender a viver novamente. Cada dia que passa é pior, a saudade aumenta, a dor é infinita... Dor dividida com o sogro Pacheco, a sogra Alice, a cunhada Alline e filho, André Luiz.


Júnior Villar, 39 anos

Júnior deixou para a esposa, Cinthya Melo, as maiores riquezas que ela tem: Maria Eduarda e Juan Davi, filhos do casal.


Ele sempre foi muito feliz, de fácil amizade, gostava de comer bem e por falar nisso, amava um churrasco. Nos fins de semana, sempre que dava, ia ao sítio. O bom pra ele era a música alta e a família pertinho.


Foi diagnosticado com a Covid-19 no dia 5 de julho e faleceu no dia 17 do mesmo mês. Durante os 39 anos que viveu, Júnior amou e foi muito amado de volta.


“Perdi um amor, meu pilar o pai dos meus filhos, ele sempre foi dedicado à nossa família, sempre estávamos em primeiro lugar em qualquer da situações. Ele se foi, mas deixou o legado. Ele estará sempre presente", relata.



Franciclay e Sidcley, 42 e 47 anos

Francineide Regina perdeu dois irmãos para a Covid-19.


Um deles, Franci, tinha leucemia e estava fazendo tratamento no Hospital de Base e contraiu a Covid-19 lá dentro. 15 dias após ter sido infectado ele faleceu, em 22 de maio. Sidcley contraiu o novo coronavírus em Guajará-Mirim, passou 33 dias em coma e morreu no dia 7 de junho.


Ambos nascidos e criados em Guajará, em uma família que gostava muito de festa e música. Os dois tinham um grupo de pagode, o “Simpatia”. A banda tinha esse nome porque Sid era chamado de “Sidcley Simpatia”.


Sidcley também gostava muito de dominó. Toda semana saia com amigos pra jogar e tomar sua cervejinha.


Já o Franci tinha um "jeitão mais recatado". Gostava de pescar junto com um grupo de amigos e era conhecido por sempre ajudar a todos. Antes da Covid-19, ele já lutava contra a leucemia. Um dia antes de falecer tinha saído a liberação para ele fazer o transplante de medula, mas Franci não soube dessa notícia. Não deu tempo. A Covid não deixou.


“Após o falecimento do Franci nós depositamos todas as esperanças que o Sidcley retornaria, voltaria bem, tocaria na igreja, preencheria um pouco esse espaço que o Franci tava deixando. E o Sidcley já estava com melhoras, já tinha saído da entubação. Mas 00h40, do dia 7 de junho ele morreu. A gente não se conforma", lembra a irmã.


“Tem dias que a gente não aguenta e chora. Não é fácil pra quem perdeu um, imagine pra quem perdeu dois” relata.


Helder Santos Silva, 44 anos

A honestidade e o empenho em tudo que fazia eram duas das inúmeras qualidades de Helder. Ele lutou exatos 24 dias contra o vírus.


A filha, Gabrielle Silva, de 21 anos, às vezes tem a sensação que vai ver o pai na rua parando os carros. É que Helder era policial de trânsito e foi taxista por muito tempo.



“Foi dolorido ver a carreata dos taxistas, foi horrível ver aquela fila de policiais fardados e não ver ele em pé, bem, com saúde. Nenhuma flor conseguiu acalentar, nenhuma palavra tirou a dor da perda, pareceu injusta a morte dele. Eu, a minha madrasta, a minha tia, estávamos diante de um caixão e alguém que amávamos estava ali dentro”, conta.


“Vi no meu celular a mensagem de uma amiga dizendo “sinto muito, Gabi” e entendia o que ela estava querendo dizer, mas não acreditava direito, não caia a ficha. Liguei pra minha irmã mais velha que mora em Manaus e a gente chorou juntas”.


No Dia dos Pais, Gabrielle também chorou. Lembrou com saudade que eles costumavam sair para assistir filme e tomar açaí. Helder amava ir ao Espaço Alternativo de Porto Velho com o filho mais novo, agora com 1 ano e 7 meses.


Maiara Rodrigues da Silva, companheira de Helder, sente que ele viveu bem a vida, com o espírito jovem. O carinho fica na memória. Mas também tem a dor da ausência.


Hilda Santos de Souza, 59 anos

Dona Hilda era muito animada, gostava de participar de tudo, das festas juninas da família, Natal, Ano Novo, tudinho. Ela era muito ativa, gostava de dançar, se divertir e aproveitar a vida. Muito devota de Nossa Senhora, inclusive no final de 2018 fez uma viagem em homenagem à santa.


Ela foi internada dia 23 de junho e começou uma luta de 30 dias para sobreviver da Covid-19. Ao completar um mês no pronto-socorro do Hospital João Paulo II, dona Hilda morreu.


“É difícil. Uma hora você tá almoçando e jantando com sua mãe todos os dias e agora tem que aceitar que ela não tá mais aqui. Tudo lembra ela”, diz Maxlene, filha que está com saudades.



“Maria Alegria”, 74 anos

O nome completo é Maria Raimunda Souza da Silva, mas todo mundo costumava falar: “Maria, seu sobrenome é Alegria”. Ela tinha uma gargalhada maravilhosa.


Amava dançar e até se apresentava junto com o companheiro no grupo de idosos. Dançava em casa também, com a neta, ou até sozinha.


“Toda vez que eu vou chegando na casa dos meus pais eu penso que ela vai tá lá na frente pra abrir o portão pra mim. Toda vez...”, diz Edinauro, filho.


Edie teve Covid-19 e o pai pegou também, mas dona Maria não tinha sintomas. Foi numa sexta-feira que começou a ficar muito cansada e a sentir falta de ar. Então a família chamou o Samu, que a levou à UPA.


“23h30 ela faleceu e desse horário até 10h, que foi o enterro, eu não vi mais a minha mãe por causa dos protocolos. Foi uma correria. O carro parou aqui na frente, a gente teve que se despedir sem ver. Isso maltrata a gente", desabafa.


"Meu pai sempre fala que eles tiveram 54 anos de casados e alguns meses. As lembranças permanecem. Um dia eu vi ele dormindo abraçado com o travesseiro dela”.


A dor é inexplicável. Faz falta o barulho da gargalhada de "Maria Alegria".


Nestor Pereira Campista, 77 anos

Poeta, jardineiro, bom pai e ótimo esposo. Deixou um sonho que a família prometeu realizar: publicar um livro.


Nestor Campista aprendeu a ler e a escrever sozinho aos 30 anos. Com o tempo descobriu que tinha o dom de criar poesias e embrulhou seus anos com a arte. Sempre se dedicou para que os sete filhos tivessem a educação que ele não recebeu.


Ele ficou 17 dias na UTI e nesse período a ausência já era sentida na família.


“Aceitar a perda não é fácil, ainda mais da forma como foi. A gente não conseguiu ver o rosto dele pela última vez. Tem que ver o caixão de longe. Eu queria que ele estivesse aqui com a gente, mas Deus precisou dele lá em cima. Hoje ele faz poesia junto com Deus”, acredita Luiza, a filha de Nestor.


Antônio Bezerra de Araújo, 78 anos

Nascido em Alto Santo, no estado do Ceará, Antônio deixou ensinamentos espalhados em vários corações que hoje estão em Rondônia e no Pará. Sempre foi um homem religioso, bondoso e amoroso com todo mundo, segundo a família. Ele até colocava o bem estar dos outros na frente do dele. Por ser homem muito correto, passou isso aos filhos.


“Ensinava que a gente não deveria se dar bem em cima de ninguém, que era pra conseguir as nossas coisas com o próprio suor e trabalho”.


Seu Antônio era caseiro, gostava de assistir jornal, novela com a esposa e amava mesmo era estar perto da família e dos filhos.


O filho mais novo, Sandro, mora em Altamira (PA) Ele sentiu a dor todinha da perda estando a 1.739 km de distância. Não conseguiu participar do enterro, pois o pai faleceu no sábado, dia 26 de junho, e no domingo de manhã foi sepultado. Nesse dia não tinha voo para Porto Velho.


“Minha família começou a ter sintomas mais ou menos uma semana antes, só que não era nada confirmado, começaram a fazer os exames e descobriram que minha mãe estava com Covid-19. Meu pai começou a ficar fraco, ter problemas pra se alimentar e meu irmão que é enfermeiro deu muito suporte pra ele, mas a situação foi se agravando”, disse Sandro.


A família católica fervorosa guarda os ensinamentos do pai, que acreditava na Vida Eterna depois daqui.

Postar um comentário

0 Comentários