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Inseridos à força na propaganda estatal da Rússia, alunos e professores viram fiscais do governo

 Desde o início da guerra na Ucrânia, dia 24 de fevereiro, a Rússia investe pesado na propaganda estatal. Todos os níveis da sociedade foram inundados com mensagens e imagens em apoio ao que o Kremlin chama de “operação militar especial”, um eufemismo para a guerra. Aqueles que contestam abertamente a invasão do país vizinho são denunciados com base em uma lei de março que pune quem “desacreditar as forças armadas” ou disseminar “notícias falsas”. O cenário não é diferente nas escolas, onde alunos e professores foram transformados em fiscais do Kremlin, com casos de demissões e ações judiciais contra quem ousa contestar as ideias do presidente Vladimir Putin. As informações são do jornal independente The Moscow Times.

“O que poderíamos considerar propaganda pró-guerra está acontecendo na maioria das escolas em todo o país”, disse Daniil Ken, chefe do sindicato independente Aliança dos Professores, ligado ao movimento do oposicionista Alexei Navalny. Segundo ele, basta observar as redes sociais para constatar que 95% das escolas adotaram uma postura de apoio público ao conflito.


O discurso do presidente Vladimir Putin sobre a invasão, feito logo no primeiro dia da guerra, foi exibido aos alunos de pelo menos duas regiões russas, uma delas a de Moscou. Segundo uma professora que preferiu o anonimato, caso um educador de sua escola optasse por não participar do evento, era substituído por outro. E o vídeo, assim, chegaria aos alunos de qualquer maneira.


Questionado, o diretor da instituição, que também é deputado pelo partido Rússia Unida, alinhado com Putin, disse que o estabelecimento de ensino é “apolítico”. A professora, porém, contesta o argumento: “No entanto, quaisquer cartazes antiguerra nos banheiros, postagens nas redes sociais ou mesmo discussões entre os alunos foram cortados pela raiz”, disse a professora.

Crianças russas de uma turma da educação infantil exibem a letra “Z’ em apoio à guerra (Foto: reprodução/Twitter)

De acordo com Ken, tais ações de propaganda são ilegais, o que leva o governo a agir por baixo dos panos. “De acordo com a lei federal, a educação é definida por programas aprovados pelo Estado”, disse ele. “E não há nada sobre a ‘operação militar especial’ nesses programas. Então, tecnicamente, um professor não precisa organizar essas aulas. É por isso que essas instruções são dadas extraoficialmente”.


Aos professores, resta acatar as ordens, sob risco de punição. Há casos de educadores denunciados, julgados e condenados por manifestar oposição à guerra. Outros foram demitidos. E, segundo Ken, muitos são pressionados indiretamente, com “piores condições de trabalho, queixas sobre seu trabalho, mas nenhuma punição oficial por visões antiguerra”.


A Aliança dos Professores diz que recebe semanalmente entre dez e 15 cartas de professores demitidos, pressionados a se demitir ou multados devido a seu posicionamento contrário ao conflito. Segundo, Ken tais números dão uma ideia da quantidade real de casos, vez que apenas uma pequena parcela recorre à instituição dele em busca de ajuda.


Professores denunciados

A professora de inglês Irina Gen, da cidade de Penza, foi vítima de uma denúncia que começou com um aluno. O caso dela expõe um sistema de caça às bruxas que conta com o suporte de outros cidadãos e que muitos no país comparam aos tempos de Stalin e aos piores dias da União Soviética.


Gen foi processada criminalmente porque debateu a guerra na Ucrânia com alunos do ensino médio. No debate, citou o bombardeio de uma maternidade na cidade de Mariupol, episódio que poderia configurar crime de guerra e que as autoridades russas alegam ser falso. Ocorre que um dos estudantes filmou o debate e o tornou público, atraindo a atenção do Estado.


A professora, então, foi acusada de distribuir o que o governo considera “notícias falsas” sobre operações militares russas. Se condenada, pode pegar até dez anos de prisão.


“Eu acho que tudo isso se originou com os pais [dos alunos]. Ou seja, uma criança em uma conversa mencionou que a professora de inglês tinha um ponto de vista completamente diferente”, disse ela. “Sei que um pai de aluno dessa turma trabalha para a FSB (Agência Federal de Segurança). Acho que foram enviados para me gravar e ‘vazar’ para a polícia”.


Yelena Bagaeva, também professora de inglês, da região da Sibéria, tentou dialogar com seus alunos sobre a guerra em março, pouco após a invasão de 24 de fevereiro. “Eu tentei transmitir que qualquer guerra é ruim, que você não pode desejar a morte aos ucranianos e odiá-los, eles são pessoas como você”, conta ela.


Porém, a conversa foi gravada por um aluno, e a mãe dele denunciou a professora por disseminar “propaganda anti-Rússia”. Bagaeva foi julgada com base na nova legislação e recebeu uma multa de 40 mil rublos (R$ 3,15 mil, no câmbio atual).


E não basta aos professores aderir à propaganda, ou então apenas engolir as críticas. A categoria tem sido cobrada pelo monitoramento da rotina dos estudantes, com a obrigação de denunciar eventuais manifestações antiguerra dos jovens.


A professora de literatura Nataliya Aleksandrova, da região russa de Sverdlovsk, foi demitida pouco após se recusar a monitorar as manifestações de seus estudantes nas redes sociais.


“Sou advogado com uma segunda formação superior e estou convencida de que esse tipo de monitoramento e vigilância é contrário à legislação vigente e viola os direitos dos menores à privacidade”, disse ela ao site Dovod Online.


Embora a justificativa da demissão tenha sido outra, a professora afirma que foi consequência direta da recusa em censurar os estudantes. Oficialmente, a escola diz que a demitiu porque a licença-maternidade de outra funcionária a quem Aleksandrova substituía acabou. “No entanto, na altura da contratação, ninguém me disse que a vaga era para cobrir licença maternidade”, afirma.


Por que isso importa?

Na Rússia, protestar contra o governo já não era uma tarefa fácil antes da eclosão da guerra na Ucrânia. Os protestos coletivos desapareceram das ruas da Rússia desde que o governo passou a usar a pandemia de Covid-19 como argumento para punir grandes manifestações, sob a alegação de que o acúmulo de pessoas fere as normas sanitárias. Assim, tornou-se comum ver pessoas solitárias erguendo cartazes com frases contra o governo.


Desde a invasão do país vizinho por tropas russas, no dia 24 de fevereiro, o desafio dos opositores do presidente Vladimir Putin aumentou consideravelmente, com novos mecanismos legais à disposição do Estado e o aumento da violência policial para silenciar os críticos. Uma lei do início de março, com foco na guerra, pune quem “desacredita o uso das forças armadas”.


Dentro dessa severa nova legislação, os detidos têm que pagar multas que chegam a 300 mil rublos (R$ 16,9 mil). A pena mais rigorosa é aplicada por divulgar “informações sabidamente falsas” sobre o exército e a “operação militar especial” na Ucrânia, que é como o governo descreve a guerra. A reclusão pode chegar a 15 anos.

Jovem russa exibe cartaz com a frase “não matarás” em protesto antiguerra (Foto: reprodução/Twitter)

Apesar dos riscos, muitos russos enfrentam a repressão e a possibilidade de serem presos e protestam de diversas maneiras para deixar clara sua oposição ao conflito.


Em Moscou, no dia 15 de março, ignorando todos esses riscos, uma mulher escolheu como ponto de protesto a Catedral do Cristo Salvador. Em um cartaz, reproduziu o sexto mandamento segundo a Igreja Ortodoxa: “Não matarás”. Outra mulher desafiou a censura e se posicionou em uma esquina próxima do Kremlin com um cartaz que dizia “Não à guerra”. Ambas foram retiradas por policiais e colocadas em um camburão menos de dez minutos depois de exibirem os cartazes.


Yevgenia Isayeva, uma artista e ativista da cidade russa de São Petesburgo, optou por um protesto mais gráfico no dia 27 de março. Com um vestido branco, ela se posicionou em frente à prefeitura da cidade e, então, despejou tinta vermelha sobre a roupa, enquanto dizia repetidamente: “Meu coração sangra, meu coração sangra…”. Também teve poucos minutos para se manifestar antes de ser retirada à força.


Há, ainda, os manifestantes que querem deixar sua mensagens sem expor a própria imagem. Casos dos grafiteiros que têm feito surgir nos muros de cidades russas mensagens antiguerra. Também em 27 de março, dois homens foram presos na cidade de Tula, no sul do país, acusados de grafitar mensagens como “Derrubem Putin” e “Parem Putin”.


A jornalista russa Marina Ovsyannikova, por sua vez, ficou conhecida mundialmente por interromper um noticiário na TV estatal russa Canal 1 (Piervy Kanal) para protestar contra a invasão da Ucrânia. No dia 14 de março, ela se postou repentinamente atrás da apresentadora de um telejornal com um cartaz escrito em russo e inglês que dizia “Não à guerra, não acredite na propaganda. Eles estão mentindo para você”. Ela ficou no ar durante vários segundos até que o canal a tirasse de cena.


No dia seguinte ao protesto, a Justiça russa condenou a jornalista a pagar também uma multa de 30 mil rublos (cerca de R$ 1,69 mil), justificando de se tratar de uma “tentativa de organizar um protesto não autorizado”. Ovsyannikova diz que pediu demissão e que não pretende sair do país, alegando ter recusado uma oferta de asilo da França. Em abril, ela foi contratada como correspondente freelancer do jornal alemão Die Welt.


Coletivamente, um jeito diferente de protestar tem sido através de mensagens escritas em cédulas e moedas de rublos. O fenômeno passou a ser compartilhado em plataformas como Twitter, Telegram e Reddit. As mensagens são normalmente escritas à mão, sendo as frases mais comuns “não à guerra” e “russos contra a guerra”.

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