A mesma África do Sul que produziu Mandela produziu também o seu contrário. O exemplo de Madiba, aplaudido em todo o mundo, irá ou não triunfar no seu país e no continente africano? Não é uma questão de resposta fácil, afirma o escritor angolano José Eduardo Agualusa. Vale a pena reflectir sobre ela.
Na história da África do Sul há uma imagem extraordinária, a qual com a passagem dos anos ganhou ainda mais — senão outros — significados. A 11 de Fevereiro de 1990, Nelson Mandela emerge da cadeia-fazenda de Victor Verster, no Cabo Ocidental, ao lado da segunda mulher, Winnie Mandela.
O que vemos hoje naquela imagem não é o mesmo que víamos há 23 anos. Em 1990, víamos uma bela e comovente história de amor, de superação e de liberdade. Hoje vemos, caminhando em direcção ao futuro, de mãos dadas, o ANC nas suas duas versões antagónicas. De um lado a aposta no diálogo e no perdão, a abertura ao outro, a inteligência, a paciência, o espírito democrático, o desprendimento em relação ao poder, a humildade, a elegância, o amor ao próximo. Do outro, o rancor, o ódio em carne viva, a arrogância, a sede de poder, a corrupção, o populismo fácil, a estupidez e a crueldade.
Importa avaliar, no momento em que Mandela partiu, a força e a consistência do seu legado no ANC, no conjunto da sociedade sul-africana, e em África de uma forma geral.
Nelson Mandela é um produto da complexa sociedade sul-africana. Mandela nasceu e cresceu no seio da aristocracia rural xhosa, educada e bastante sofisticada, sobretudo em comparação com os rudes camponeses semianalfabetos, prisioneiros de uma ideologia religiosa arcaica e ultraconservadora, que no final dos anos 40 se apossaram do poder na África do Sul, começando então a desenhar e a erguer o sistema do apartheid.
Lembro-me de ter conhecido nos anos 80 um diplomata sul-africano, bóer, que me explicou de forma resumida aquele que era, no seu entendimento, o dilema sul-africano: “Os meus avós não sabiam ler nem escrever. Andavam descalços. Tomámos o poder e criámos o apartheid para poder calçar todos os bóeres. Hoje temos sapatos e não queremos voltar a andar descalços.”
O afrikaans, a língua dos bóeres, um crioulo de base holandesa, que incorporou muitas palavras de origem banto, malaia e khoi san, nasceu nos quintais e nas cozinhas da Cidade do Cabo. Os escravos muçulmanos, provenientes da Indonésia, foram importantes em todo este processo. É significativo que o primeiro documento que se conhece em língua afrikaans, datado do século XVIII, tenha sido escrito em caracteres árabes, facto um tanto embaraçoso para os teóricos do apartheid.
Breyten Breytenbach, um poeta originalíssimo, que assina um belo livro traduzido para português por Mário Cesariny — Enquanto Houver Água na Água e Outros Poemas, Publicações Dom Quixote, 1979 — aterrorizou os membros da sua própria tribo, em 1973, aquando de uma conferência na Universidade da Cidade do Cabo, ao defender a natureza bastarda dos bóeres: “Somos um povo bastardo, com uma língua bastarda. Eis o bom e o bonito. (...) Caímos na armadilha do bastardo que chega ao poder. Nessa porção de sangue que nos vem da Europa vinha a maldição do sentimento de superioridade. Quisemos legitimar a nossa força. E para isso tivemos de combater, debater, abater. Tivemos de nos entrincheirar atrás da nossa diferença. (...) Fizemos dessa diferença a norma, a regra e o ideal. E porque a defesa dessa diferença se faz em detrimento dos nossos irmãos sul-africanos, sentimo-nos ameaçados. Erguemos muros. Não cidades: muralhas. E como todos os bastardos, pouco seguros da sua identidade, começámos a afixar o conceito de “pureza”: o apartheid. O apartheid é a lei do bastardo.”
Fonte: Público.pt
